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segunda-feira, 29 de junho de 2009

El señor Pedro Caetano

XXX
Era um Domingo chuvoso, cálido, abafado. Esse dia que havia de estar destinado ao clash de Titãs, há muito aguardado por ambos.
A festa decorria, alegre, colorida, com a natural azáfama. O cheiro das iguarias invadindo a Villa, os balões, as fitas, as correrias das crianças. Os convivas que deambulavam sorridentes, alheios à carga emocional dos momentos que antecediam o embate.
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À chegada, Capitan Felipe e Juanita são recebidos com carinhosos abraços pelos simpáticos anfitriões: A elegantérrima "mamacita" Paola, e "la hermosa" Monica Menezes. Madalena dormia, no seu vestido de algodão, ao sabor da brisa doce do início da tarde. Antonio, seu viejo amigo, acena convidativo, do fundo das escadas. Santiago, o pequenino aniversariante, grita-lhe entusiasticamente:
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- Compañero...
- Feliz cumpleaños, my hermanito!
- Gracias. Vem. Tens de vir ver la fiesta. - disse-lhe, abrindo um sorriso, e tomando-lhe o braço dedicadamente.
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Ao avançar sobre a varanda, rodeado por seus companheiros, está o señor Manuel Tomaz, patriarca da família. Alto, barrigudo, de cabelos grisalhos e bigode. Homem amável e senhor de uma sabedoria formidável. Daquelas que só a experiência da vida, vivida em pleno, pode dar.
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- Hombre, que seas muy bienvenido. Venga, toma una taza de vino.
- Gracias, señor Tomaz. Com este calor aceito toda a frescura.
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O ambiente não podia ser melhor, mais festivo, mais agradável. Era como um banho de boa disposição que contagiava. Todos irradiavam tranquilidade. Todos. - Mas ele não. Ele, muito especialmente, não.
Roía-lhe silencioso, um desassossego miudinho no estômago, que calava ao sorver da enxovia morna entre frugais goles de vinho.
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Foi cá fora, já sentado na poltrona, entre conversa animada e risadas com Tomaz que sentiu aquela presença. Como um vulto, bailando por entre as gentes. Como uma bruma que vem descendo do céu sobre a última luz do dia. Olhou de soslaio, sobre o seu ombro esquerdo, e lá estava ele: Rindo. Cumprimentando calorosamente alguns dos convidados. Os seus olhos negros líquidos, dardejando, mortificavam-no. E à medida que se ia aproximando dele, a temperatura aumentava, tornava o ar quase irrespirável.
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Foi Antonio, amigo de ambos e padrinho deste inevitável duelo, quem fez as honras de os apresentar. A sua voz tremeu, num tom grave, quase apagado, enquanto dizia: Felipe, este é Pedro Caetano. Pedro, este é Felipe Pinto. E, de pé, ambos, de olhos nos olhos, fitando-se longamente, avançam um para o outro.
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É impossível dizer qual deles sacou primeiro da mão nervosa. Quem antecipou a contracção do braço direito e depois o esticou, com os dedos hirtos, apontando na direcção um do outro. Dir-se-ia que foi místicamente em simultâneo. A verdade é que chegaram ao mesmo sítio, ao mesmo tempo, com a mesma intensidade. E selaram num aperto de mão viril, cheio de personalidade o profético encontro.
Durante aquele instante, todo o tempo parou. Os olhares apreensivos de quem os rodeava, os cochichos, as ânsias, os temores, as respirações, tudo cessou por momentos.
O mundo inteiro parou de girar, enquanto perdurava aquela invasão áspera da alma ígnea de um e outro.
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Uma bola de feno rolava na terra batida, ao fundo. O assobio do "O Bom, O Mau e o Vilão" ressoava nas paredes da Villa. Tudo o resto tinha ficado suspenso no ar, inerte, amorfo, imóvel.
O momento não podia ser mais tenso, a atmosfera mais carregada.
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E, como que por magia, nasce - ali mesmo - no deslizar das mãos para fora daquele cumprimento seco, uma estranha empatia. Do confronto iminente destes dois Titãs quase bíblicos, nasce - não um ódio profundo, nutrido pelo ciúme e a intriga a que estiveram sujeitos desde antes de se conhecerem - mas uma sensação que os toma de assalto, de sobrenatural familiaridade.
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O silêncio pesado que se tinha instalado, como a cortina do final do acto, é desvelado agora docemente, pela voz de António, que - ao ver o incrível do sucedido - os desafia: "Venga, entonces, mis hermanos. Bebamos como se não houvesse amanhã. O que aconteceu aqui hoje, só podem ser artes mágicas... ha ha ha! - Longa vida, mis hermanos. SE HAGA FIESTA".
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E pelo dia fora e a noite dentro, pois bebeu-se e comeu-se e festejou-se, como já há muito não se via, naquela Villa. Todos estavam felizes. Felipe e Pedro brindavam e riam alto, e contavam estórias, e falavam das suas aventuras. Quem os visse, jurava que eram como irmãos. Que se tinham conhecido toda a vida!

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Michael Jackson, King of Pop

XXIX
Recebi, às 2 a.m. de hoje, a notícia de que a música morreu.
Parou, sob a forma de um coração, que viveu no peito de Michael Jackson durante 50 anos. E nos fez palpitar a todos. E cantar, e querer dançar como ele - naquele seu mágico moonwalk.

O sétimo filho da família Jackson que, desde cedo viu comprometida a sua infância em detrimento do atropelo do show business, deixa-nos um legado absolutamente incontornável e imortal, dando vida ao motto "Ars Longa, Vita Brevis".

Jacko - que nos trouxe temas deliciosos como Thriller, de 1982 (álbum mais vendido em todo o mundo), ou o Bad, Billy Jean, Black or White, Don't Stop 'Till You Get Enough, e o reflexivo Man in the Mirror, do álbum Bad, de 1988 (que chama a atenção para os factos, bem como para os ícones, mais relevantes da história moderna, como John F. Kennedy, Nelson Mandela, Martin Luther King, Madre Teresa de Calcuta e John Lennon) - é um artista que se reveste de muitas formas, que viveu um percurso repleto de transformações - literalmente. E, mesmo durante os últimos anos, quando vieram a público alguns factos que mostram Jackson como um ídolo menos exemplar, relembro o que escreveu Nietzsche: "Parece que todas as coisas grandes, para se inscrever no coração da humanidade com suas eternas exigências, tiveram primeiro que vagar pela terra como figuras monstruosas"...

Ironia do destino, após anunciar, no dia 5 de Junho (na que viria a ser a sua última conferência de imprensa) o seu regresso, com a tournée This is It, como sendo o fim da sua carreira, Michael não voltaria aos palcos e, sarcasticamente: This was - DEFINITELY - it!

Independentemente de toda e qualquer opinião que possamos ter sobre este performer, a verdade é que a beleza que nos transmitiu com os seus temas, a sua excentricidade, e as propriedades mágicas, imbuídas no legado fascinante que nos ofereceu ao longo dos últimos 30 anos, são absolutamente inalienáveis.

Por tudo quanto nos fizeste sentir, um sincero e infinito:
Muito obrigado!
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May you finally rest in peace... Farewell, Peter Pan!
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segunda-feira, 15 de junho de 2009

As Mulheres de 30

XXVIII
O que mais as espanta é que, de repente, elas percebem que já são balzaquianas. Mas poucas balzacas leram "A Mulher de Trinta", de Honoré de Balzac, escrito há mais de 150 anos. Olhe o que ele diz:
"Uma mulher de trinta anos tem atrativos irresistíveis. A mulher jovem tem muitas ilusões, muita inexperiência. Uma nos instrui, a outra quer tudo aprender e acredita ter dito tudo despindo o vestido. (...) Entre elas duas há a distância incomensurável que vai do previsto ao imprevisto, da força à fraqueza. A mulher de trinta anos satisfaz tudo, e a jovem, sob pena de não sê-lo, nada pode satisfazer".

Madame Bovary, outra francesa trintona, era tão maravilhosa que seu criador chegou a dizer diante dos tribunais: "Madame Bovary c'est moi". E a Marilyn Monroe, que fez tudo aquilo entre 30 e 40?

... O que mais encanta nas de 30 é que parece que nunca vão perder aquele jeitinho que trouxeram dos 20. Mas, para isso, como elas se preocupam com a barriguinha!

... Elas talvez não saibam, mas são as mais bonitas das mulheres. Acho até que a idade mínima para concurso de miss deveria ser 30 anos. Desfilam como gazelas, embora eu nunca tenha visto uma (gazela). Sorriem e nos olham com uns olhos claros. Já notou que elas têm olhos claros? E as que usam uns cabelos longos e ondulados e ficam a todo momento jogando as melenas para trás? É de matar.

... A mulher de 30 ainda não fez plástica. Não precisa. Está com tudo em cima... Quando resolve, vai pra valer... Mata o homem, tenha ele 20 ou 50. E o hálito, então? É fresco...

Mas o que mais me encanta nas mulheres de 30 é a independência. Moram sozinhas e suas casas têm ainda um frescor das de 20 e a maturidade das de 40. Adoram flores e um cachorrinho pequeno. Curtem janelas abertas. Elas sabem escolher um travesseiro. E amam quem querem, à hora que querem e onde querem. E o mais importante: do jeito que desejam.

São fortes as mulheres de 30. E não têm pressa pra nada. Sabem aonde vão chegar. E sempre chegam.

Chegam lá atrás, no Balzac: "A mulher de 30 anos satisfaz tudo".

Ponto. Pra elas

(Mário Prata)
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...faltam 8 dias, 6 horas, 22 minutos e 43 segundos...

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Cristiano Ronaldo

XXVII
Hoje, nas notícias dos jornais pelo mundo fora, pode ler-se tudo sobre o contrato milionário de Cristiano Ronaldo com o Real Madrid.

O "Puto Maravilha", chamam-lhe alguns, que recebeu até o prémio de Melhor Jogador do Mundo, vai agora correr 90 minutos por semana, e dar meia dúzia de pontapés, quiçá até chorar um bocadinho pelo clube espanhol, pela módica quantia de 10 000 000 € por ano = 27 300 € por dia = 1 137 € por hora = 18 € por minuto. Para além da verba de 93 000 000 € que Los Galácticos vão pagar ao Manchester United pela compra do menino prodígio.

Eu, em vez de me pôr aqui a atirar palpites e bitaites e conversa fiada sobre a inquestionável qualidade dos seus remates, ou dos momentos de rara beleza e a formidável técnica dos seus inusitados dribbles que, diga-se, não têm dado grande resultado a favor da selecção nacional, vou - isso sim - fazer umas contas rápidas e simples para ficar com uma ideia mais clara destes valores. Ah, e sem nunca esquecer os leitores juniores do Macaquinhos, um pequenino exercício matemático, muito útil nesta altura do ano...
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Ora, se um jogador de futebol recebe, por dia, 27 300 euros.
E, sabendo que um litro de leite custa 0,54 cêntimos.
Quantos pacotes de leite, se podiam comprar, todos os dias?

Resposta: Seria possível comprar 50 555 pacotes de leite por dia!
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Ora, se um rapazola ganha, por ano, 10 000 000 de euros.
E, sabendo que um livro para o primeiro ciclo, ronda os 7 euros.
Quantos livros se poderiam comprar, todos os anos?

Resposta: Poderiam comprar-se 1 428 571 livros todos os anos!
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Pense nisto sempre que vir um desses golos tão especiais, marcados com um par de NIKE CR7, feitas à mão por crianças vietnamitas.
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segunda-feira, 8 de junho de 2009

Elogio ao Amor

XXVI
Quero fazer o elogio do amor puro.
Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
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Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.
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Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá tudo bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas.
Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
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O amor é uma coisa, a vida é outra.
O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade.
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Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.
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O amor é uma coisa, a vida é outra.
A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não está lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.
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Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir.
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A vida é uma coisa, o amor é outra.
A vida dura a vida inteira, o amor não.
Só um mundo de amor pode durar a vida inteira...
E valê-la também.
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(Miguel Esteves Cardoso)

Macaquinhos no Mundo: